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“Quem estuda música não pode ser pessoa má”, diz violonista

Fonte: Jornal O Globo 

“Nasci há 40 anos, em Novossibirsk, então União Soviética. A música é minha parceira em metade da vida. A outra metade pertence à minha mulher e às minhas duas filhas. Espero ter tempo para me dedicar às duas metades e realizar o sonho de ‘infectar’ o maior número de pessoas com o gosto pela boa arte”

Maxim Vengerov fala sobre a essência da música, o papel educativo dela e conta como foi sua experiência com os jovens violinistas da orquestra de comunidade carioca

Maxim Vengerov fala sobre a essência da música, o papel educativo dela e conta como foi sua experiência com os jovens violinistas da orquestra de comunidade carioca

Conte algo que eu não sei.

Quem toca um instrumento ou estuda música não pode ser uma pessoa inteiramente má. Haveria um desacordo entre ela e seu coração.

De onde vem essa ideia?

Minha mãe lecionava num orfanato na União Soviética. Ela recolhia crianças de rua. No começo, eram agressivas, quebravam coisas nas salas de aula. Mas tão logo eram apresentadas a um instrumento, suas mentes mudavam.

A música tem um papel educativo?

Sim. Eu trabalhei por um tempo como Embaixador da Boa Vontade para o Unicef. Viajei para países onde as pessoas não tinham qualquer conhecimento de saúde e higiene. O Unicef levava livros para ajudá-las a progredir como seres humanos. O mesmo vale para a música.

Pessoas nessas condições têm como apreciar?

Não é da noite para o dia. Você não diz para a pessoa “coma bem” e espera que ela mude seus hábitos logo. Mas, para gostar, a pessoa não precisa ser um connaisseur. A grande música é carregada de grandes energia e informação.

Como se sentiu no projeto Orquestra Maré do Amanhã?

Privilegiado, por compartilhar meu tempo com eles. E suponho que signifique muito para eles a presença de alguém do mundo tradicional da música. Quando pensamos seriamente a sociedade atual, vemos que a música é vital. Mas a música de boa qualidade.

Isso não é válido para qualquer tipo de música?

A música que nos agrada não é necessariamente de boa qualidade. O mesmo vale para a comida. Às vezes gostamos mais de um prato gorduroso do que de uma salada. Há música no elevador, no restaurante. É um crime contra o nosso bem-estar, uma violação do corpo e da alma.

Como resolver isso?

Para mim, a grande essência da música é a música folclórica, feita pelas pessoas comuns. Tchaikovsky dizia que a música pertence ao povo, e nós, compositores e intérpretes, apenas a editamos.

O povo precisa então retomar a música?

As pessoas precisam tocar instrumentos apenas por diversão. Estimula a mente a pensar. Quando ouvimos música, sentimos os sons, a vibração atravessa nossos corpos, criamos com as próprias mãos. Mas, para aprender decentemente, a pessoa precisa de tempo. Sem “milhagem” não se chega a lugar algum.

E as pessoas têm tempo nessa sociedade acelerada?

Nossa sociedade tecnológica nos abre enormes possibilidades, mas você precisa de algo que não seja tão à la mode, que remeta a valores humanos. A música estava presente antes de o ser humano se organizar em sociedades civilizadas. Ela prescinde de palavras. Dois violinistas se comunicam. Se falarem, podem discordar, mas, quando tocam, se entendem. É essa harmonia que falta ao mundo. A música deveria ser um modelo de nossas vidas.

Você toca com um Stradivarius de 1727. Qual a sensação de usar uma obra de arte como ferramenta de ofício?

Quando eu viajo, levo comigo a grande tradição que ele representa. O público tem um prazer triplo: vê o violino como se fosse a um museu, ouve a música e ainda aprecia a performance.

Veja uma das apresentações de Maxim Vengerov no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no início deste mês de setembro: